Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

Tratado de Limites de Lisboa

ou

Tratado de Limites Galaico-Trasmontano

(29 de setembro de 1864/29 de setembro de 2014)

2ª Parte

 

Um dia armou-se foliada em Vilarelho. Os gaiteiros eram de além raia e os dançantes de aquém. Chegou a Guarda Civil: “Los españoles no pueden estar aquí. Se acabó la fiesta, cojones”. Foram-se para a raia. Galegos de cá, de uma banda e galegos de lá, da outra. Continuou a folia transfronteiriçamente.

 

"Em Vilarelho da Raia há uma pedra a separar duas hortas. Essa pedra separa também dous estados. Espanha: cebolas; Portugal: batatas”[1]

 

252 VilarelhoRabal.jpg

Paula Godinho refere que o termo “promíscuo” tem atributo negativo nas línguas ibéricas. E não está claro quando começou a ser utilizado, pois nos textos antigos os povos são ditos “místigos”. A designação de “Povos promíscuos” é a utilizada nos textos do Tratado e proveniente de um olhar exterior, distante da realidade local …

LAMADARCOS_antigaParteEspanhola_igreja espanhola.j

No entanto, os responsáveis das negociações, de Lisboa e Madrid, viam nos aldeões e nestes povoados, sitos nos confins de Portugal - Trás-os-Montes, como pouco civilizados (“a existência de três lugares miseráveis”, diziam os espanhóis), e esta situação anómala um atentado aos bons costumes.

cambedo.jpg

 A linha vermelha indica a fronteira, Cambedo

 

Quanto às vantagens retiradas pelos seus habitantes, existem duas teses:

A primeira defende que estes três povos não tinham vantagens especiais e pagavam os seus impostos. Os partidários da segunda tese defendem que os seus habitantes aproveitavam para fugir a certas obrigações (impostos, tropa,...).

Casa construída sobre a fronteira anterior a 1864

Casa construída sobre a fronteira anterior a 1864. A porta da direita estaria em antigo território espanhol

 

 

As vantagens seriam territoriais pois assim estavam criadas as condições de excelência para a prática do contrabando.

postoGF.JPG

 À direita, antigo posto da Guarda Fiscal em Soutelinho da Raia

 

Foram formalmente entregues os “bairros galegos” de Soutelinho da Raia e completou-se com os de Lamadarcos e Cambedo, respetivamente, a 27 e a 28 de Junho do ano de 1886, a Portugal. Este tratado só se tornou definitivo com a entrega da linha de fronteira entre os reinos de Portugal e Espanha, localmente, às autarquias raianas de Oimbra, Verin, Vilardevós e Chaves, a 30 de Novembro de 1898, responsabilizando-as pela manutenção dos marcos/hitos delimitadores.

marco 211a.jpg

 Como curiosidade, citando Miranda, este tratado podia muito bem também chamar-se de “Tratado Galaico-Transmontano” porque dos 801 marcos (hitos) colocados, 349 estavam nesta zona, o mesmo acontecendo com o articulado (Rio Minho ao Penedo dos Três Reinos).

Lamadarcos_FRONTEIRAS_blog.jpg

Voltando a Paula Godinho, citando Barreiros, esta refere que foram inúmeras as irregularidades da nova demarcação da raia que prejudicaram claramente a população do concelho de Chaves, como aconteceu em S. Vicente e Segirei, onde houve rixas e os marcos arrancados.

O Tratado pôs fim aos conflitos seculares, por imposição legal, mas não ao descontentamento e falta de proveito e primazia das populações raianas do concelho.

[1] “A gente da barreira“ in “Passsar a raia” blog Calécia, 30/03/2007

 

Bibliografia

 

- "Tratado dos Limites de Lisboa", 29 Set 1864

- Anexos ao Tratado, 4 de Novembro de 1866

- Ata da entrega aos municípios dos marcos ou hitos datada de 30 de Novembro de 1898

- “Sigillum Militum Christi” Blogue

-Vasconcelos e Sá, 1861, publicado por J. B. Barreiros

- Seara, Eliseu - “O Couto Misto de Rubiás” – Revista Aquae Flaviae nº 28 de Dezembro de 2002 pag 41

- Maña, Luís Garcia – “La Frontera Hispano-Lusa En La Província de Ourense” – Ourense 1988

- Maña, Luís Garcia – “O Couto Misto”, 2000

- “A gente da barreira”, in “Passsar a raia” – blogue Calécia, 30mar2007

- “Finis Portugalliae – Trás-os-Montes” - Maria Helena Dias e Instituto Geográfico do Exército, 2009

- Godinha, Paula – “ Oír o galo cantar dúas veces”, 2011

- Valencia, Máximo Salinas – “O Couto Misto – o seu contorno e os Pobos   Promiscuos (Descrição Socioeconómica)” in Associação “Amigos do Couto Misto”

- Miranda, Júlio Alonso – “Tratado de Limites Galaico-Trasmontano de 1864”, in  “Forum Galaico Transmontano” nºs 2 e 3

- Cadenas, Delfim  . excerto do artigo “A Aldeia do Cambedo e o Couto Mixto“ publicado no jornal digital “Mapa”, em 17 de Junho de 2014

- “Fronteiras histórias da raia” blogue – “Povos promíscuos” - Soutelinho da Raia

- “Chaves – olhares sobre a cidade” _ blogue, Fernando Ribeiro, 23 de julho de 2011

 

Fotografias gentilmente cedidas por Fernando Ribeiro e José Carlos Silva

publicado por AAC às 19:19
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1 comentário:
De José Rodrigues Ribeiro a 11 de Maio de 2015 às 23:21

Boa noite





Sou investigador em Sismologia





https://www.researchgate.net/profile/Jose_Ribeiro21





e interessam-me em particular quaisquer eventuais relatos de sismos que possam ter ocorrido ao longo de falhas do interior do país.




É o caso da falha de Verin-Régua-Penacova, que atravessa Chaves. Como certamente não desconhece, tem havido sismos sentidos na região de Chaves, como é o caso do par de sismos de 26 e 27 de Abril de 1910, que abalaram a cidade e de que a imprensa local, regional e nacional fez então eco.




Contudo, é bastante difícil recolher relatos da imprensa ou de outras proveniências sobre sismos menos conhecidos.




Assim, ao deparar com um blog tão bem documentado - aliás, EXCELENTE! - como é o CHAVES ANTIGA, tomei a liberdade de o contactar, com o intuito de saber se é do seu conhecimento a existência de notícias de jornais, monografias locais, memórias pessoais, efemérides, etc. sobre outros sismos que tenham sido sentidos em Chaves ou na região circundante. E como as poderei obter...




Mesmo notícias telegráficas do tipo "no dia tal sentiu-se um pequeno abalo de terra em ..." podem fazer a diferença quando se pretende fazer uma estimativa do epicentro ou da magnitude de sismos não registados em sismógrafos.








Muito obrigado pela atenção





José Rodrigues Ribeiro


Escola Secundária de Henrique Medina, Esposende


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